Louco por ti
Zé gosta e procura compreender o que se vai passando consigo. Foi isso que o levou, a partir de certa altura, a escrever o que sentia por ela, como via a relação que mantinham e o que desejava dela.
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Dez 05

Ao olhar para ela admirou-se de nunca ter reparado nela como agora estava a fazer.
Ela estava a ver umas provas de iniciação à equitação que decorriam no recinto da feira. Vestia um fato de treino que, ao contrário do que normalmente acontece, lhe realçava as formas.
Admirou-lhe, primeiro, os cabelos, o rabo e as pernas. Estava de costas. Depois, quando ela se virou e se cumprimentaram, ficou encantado com o sorriso aberto e a simpatia que irradiava. Apreciou-lhe, ainda, os olhos claros e bonitos e perturbou-se ao fixar-lhe a boca de uma enorme sensualidade.
Como mais tarde comentou para uns amigos, ela tem tudo no sítio, é perfeita. Havia, é claro, nessa afirmação, uma boa dose de exagero resultante da atracção que aquela jovem mulher começara a exercer nele. Não mais parou de pensar nela.
Zé, o protagonista desta história, já tinha tido alguns amores e muitas paixões, estas vividas sempre com enorme intensidade.
Costuma, mesmo, dizer que não se importa de trocar uns anos de vida por uma paixão, por menos duradoira que seja. Quando se está apaixonado tudo é mais bonito, mais intenso, vão-se buscar forças que se desconhecia existirem, há uma outra disponibilidade para a vida e para enfrentar os seus desafios, tudo passa a ter uma importância relativa diferente.
Ele é uma pessoa intensa e apaixonada, que sente atracção pelo desconhecido e se apresenta geralmente envolvido numa auréola de mistério, o que suscita o interesse entre as mulheres. Algumas desejam-no e disputam-no. Ele duvida sempre do interesse que dizem despertar nelas.
Ele é um missionário que se dedica às missões, que aceita cumprir, de alma e coração. Sente-se bem quando pode contribuir e ajudar nalguma coisa que possa ser útil aos outros. Acredita e valoriza o bem comum e a solidariedade entre as pessoas. A vida é vista por ele como um campo de batalha, no qual precisa de provar o seu valor, ultrapassando os diversos obstáculos que se deparam no caminho. Enfrenta a vida de uma forma autêntica e espontânea, procurando dar o melhor de si em todas as situações.
Há uns anos atrás, aceitou uma missão, considerada por muitos, quase impossível, numa vila do seu querido Alentejo.
O Alentejo, para ele, não é apenas a região onde nasceu e sempre viveu. Nunca esteve fora da região mais de um mês e, mesmo assim, foram raros os períodos tão longos que esteve fora. Sente-se parte integrante do Alentejo. As poucas tentativas que fez para viver fora da região foram imediatamente goradas. Fora do Alentejo sente claustrofobia.
Mas, como dizíamos, aceitou aquela missão quase impossível, sem vacilar. Foi acolhido muito bem pelos residentes e, rapidamente se transformou num dos seus. Impôs-se pela sua bondade, pelo tratamento igual que a todos dava, pela disponibilidade que manifestava, pela dedicação à causa que evidenciava. Muitos disputavam a sua presença e companhia. A todos procurava chegar, satisfazer, atender.
Entusiasta, optimista e progressista, ele sabe confiar em si, atraindo assim a estima dos outros. A sua natureza afectiva e generosa confere-lhe popularidade no seio dos amigos. Altruísta e despegado de interesses pessoais materiais, tem um elevado sentido de responsabilidade essencialmente virado para o trabalho.
Consideram-no comunista, o que o deixa muito orgulhoso e mais responsável e com mais vontade e determinação para continuar a ser ele próprio e procurar que os outros partilhem e participem das suas ideias e do seu modo de perspectivar a vida.
Ela foi, mais tarde, colaborar com ele naquela missão, integrada numa equipa multidisciplinar.
Embora colaborando de perto, ele não tinha ainda reparado nela, como fez então. O que teria mudado? Ele, certamente, porque ela se encontrava com a maior naturalidade, sem qualquer produção. Com certeza que o vazio que voltara a sentir na sua vida sentimental e a predisposição que começava a sentir para novamente se apaixonar terão contribuído para a olhar com outros olhos.
Passados uns dias convidou-a para jantar. Embora estranhando o convite, ela aceitou. Depois do jantar deram uma volta de carro, separando-se depois de ele lhe ter agradecido o facto de ela ter aceite o seu convite.
O encontro decorreu num misto de simpatia e cordialidade e alguma tensão, que resulta sempre da sua timidez, que o leva a ter dificuldade em avançar tanto quanto deseja, com receio da reacção não ser a desejada e, em consequência, sentir-se ridículo, que é o seu maior medo, que procura ultrapassar falando abertamente de assuntos geralmente considerados tabus - sentimentos mais íntimos, sexo, relações pessoais, designadamente entre homens e mulheres.
Depois deste primeiro encontro muitos outros se seguiram. A princípio espaçadamente e depois com alguma regularidade.
Falavam de tudo – do trabalho, da vida naquela Terra, das pessoas e das suas circunstâncias, e, fundamentalmente, deles. Foram-se abrindo cada vez mais. Mais ele do que ela, que sempre se manteve mais reservada.
Uma noite, pouco tempo depois de terem começado a sair juntos, ao apreciarem o reflexo da lua no espelho de água daquela albufeira, ele afirmou, com nervosismo:
- Quero dizer-lhe uma coisa – cada vez sinto que gosto mais de si; começo a ficar apanhado; sinto-me cada vez mais disponível e com mais vontade de me voltar a apaixonar; acho que isso já começou a acontecer e não sinto vontade e acho que já não sou capaz, de parar. Se ainda não sente nada de especial por mim e se não quer envolver-se comigo, é tempo de parar e fugir de mim. Eu já não sou capaz nem quero que isso aconteça.
Ela, apanhada de surpresa com aquela declaração, teve dificuldade em reagir, procurando desvalorizar os sentimentos manifestados por ele, dizendo que não era possível estar a acontecer o que ele dizia porque mal se conheciam ainda. E lá foram jantar, interrompendo cautelosamente a conversa que os estava a perturbar.
Embora tivessem estado um período maior sem saírem juntos, depois daquela conversa, não pararam.
Ela não deu a devida atenção ao que o Zé lhe dissera, em especial ao aviso que ele lhe fizera. Talvez porque achava muito interessantes e enriquecedoras as conversas que tinham, ou talvez porque, como dizia, embora o achasse charmoso, pensava que nada mais haveria entre eles do que a bonita amizade que nascera e florescia rapidamente. Ou, talvez ainda, porque admitia poder retomar um namoro que, mais uma vez, interrompera há algum tempo.
O certo é que o relacionamento entre eles foi ficando cada vez mais íntimo, ao ponto de ela afirmar que nunca falara tão abertamente de coisas tão pessoais e íntimas como o fazia com ele. Íntimo e dependente. Cada vez mais sentiam mais vontade de estarem juntos, de pensarem coisas juntos, de se conhecerem melhor e, quanto melhor se conheciam, mais íntimos iam ficando.
Naturalmente, até porque tomou mais cedo consciência do que se estava a passar, não se sentia capaz de impedir o desabrochar de sentimentos nem tinha vontade de travar a sua expressão, as coisas nele evoluíam mais depressa. E, por isso, ia puxando por ela, que, mais reservada e duvidosa, ia resistindo cada vez com menos firmeza.
Não percebia ela o que estava a acontecer, achava-se suficientemente segura de ser capaz de controlar a situação, ou, lá no seu íntimo, agradava-lhe o que se estava a passar e desejava que as coisas evoluíssem como estava a acontecer? Será que ela sabia? Não seriam já as contradições, tão frequentes nela, que se manifestavam?
Ele é desconcertante, por vezes fala ou tem atitudes que ninguém esperava nele. É muito curioso, autodidacta e estudioso. Procura explicações teóricas para as suas experiências de vida. Gosta e procura compreender o que se vai passando consigo. Foi isso que o levou, a partir de certa altura, a escrever o que sentia por ela, como via a relação que mantinham e o que desejava dela.

publicado por jmartinsdocabo às 19:01
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